Questões de Vírgula

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Por fim, estou convencido de que um livro é sempre o resultado, direto ou indireto, de alguma insatisfação do autor. Este o é, indiretamente, de uma que tenho com o modo habitual de trabalhar o tema do direito, da hermenêutica e da argumentação jurídica: prestando pouca atenção aos fundamentos da natureza humana e praticamente nenhum interesse por suas origens mais profundas.

Minha intenção neste livro é a de demonstrar que se aceitamos os melhores dados disponíveis sobre como são os seres humanos – considerados sob uma ótica muito mais empírica e respeitosa com os métodos científicos – podemos reconstruir os melhores e mais profundos pensamentos humanos sobre o direito e a tarefa do jurista-intérprete de dar ”vida hermenêutica” ao direito positivo em sua relação na prática cotidiana.

Longe de ser inimiga das teorias tradicionais, a perspectiva evolucionista/ funcional é um aliado indispensável das mesmas. Não pretendo substimar o abundante trabalho realizado até o momento no campo do pensamento jurídico e de sua realização prático-concreta em prol de uma alternativa adaptacionista, senão mais bem assentar dito trabalho sobre os cimentos que merece: uma visão realista, naturalista, potencialmente unificada do lugar que ocupamos na natureza.

Sem embargo, consciente de que nada provocou maior dano a estas perspectivas teóricas que as meias verdades, as mentiras e as perversas manipulações ideológicas, fiz todos os esforços possíveis para seguir o conselho do clássico e tratar de escrever, eu também, sine ira et studio.

O autor

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NÃO TROPECE NA LÍNGUA

M. T. Piacentini 8/6/2007

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QUESTÕES DE VÍRGULA

“Na frase ‘quem ler, viaja’, há gramáticos que condenam essa vírgula, pois estaria separando o sujeito do predicado. Outros aceitam argumentando que não se deve repetir dois verbos. O que a senhora acha?” (Luiz Neto, Natal/RN)

Acho que se pode – no caso de frases iniciadas com o pronome QUEM – quebrar a norma e usar a vírgula entre o sujeito e o predicado quando aparecem dois verbos juntos ou mesmo aproximados: Quem luta, consegue. Quem sabe, sabe. Quem for, verá. Quem não lê, não escreve. Quem lê bem, escreve bem. Quem ama, não mata. Quem diz sou, não é. Quem diz vou, não vai. Quem quer o melhor, escolhe XY. Quem diz não, é teimoso.

Não havendo problemas de clareza ou de estética, pode-se deixar a vírgula de lado, é claro:

Quem não deve não teme. Quem ama não adoece. Quem tudo quer tudo perde. Quem dá aos pobres empresta a Deus.

Os advérbios terminados em mente são necessariamente colocados entre vírgulas? (Mirian Silva Rossi, São Paulo/SP)

De jeito nenhum! Tampouco é preciso separá-los por vírgula no início da frase. Veja: Esta é uma medida tecnologicamente possível. Falou incansavelmente para a multidão. Saiu-se razoavelmente bem. Disse que lamentavelmente não havia condições de retorno. As cores azul e verde correspondem respectivamente aos grupos 10 e 11. Felizmente o pior já passou.

Mas você usará a vírgula se quiser dar ênfase especial ao que o advérbio expressa: Disse, inaudivelmente, que não se casaria. Infelizmente, não nos encontramos no colégio. As cores azul e verde correspondem, respectivamente, aos grupos 10 e 11.

“Ao escrevermos ‘dois mil, trezentos e vinte e seis reais e doze centavos’, é necessário pormos essa vírgula?” (Luiz Neto, Natal/RN)

Não é necessário mas é bem possível. O gramático Celso Luft advoga a colocação dessa vírgula, pois é a marca da coordenação sem conjunção (“assindética”). Napoleão Mendes da Almeida, na sua gramática, também a usa. Exemplos:

22.501 = vinte e dois mil, quinhentos e um

4.455 = quatro mil, quatrocentos e cinqüenta e cinco

3.440.205.528.367= três trilhões, quatrocentos e quarenta bilhões, duzentos e cinco milhões, quinhentos e vinte e oito mil, trezentos e sessenta e sete.

Mas (com zeros): 1.400 = mil e quatrocentos ; 4.005 = quatro mil e cinco.

Por outro lado, jornais modernos já não trazem essa vírgula depois de mil, no que têm o respaldo do gramático Celso Cunha:

62.540 = sessenta e dois mil quinhentos e quarenta

293.572 = duzentos e noventa e três mil quinhentos e setenta e dois

3. 415.741.210 = três bilhões, quatrocentos e quinze milhões, setecentos e quarenta e um mil duzentos e dez.

“Recebo correspondências onde se lê: ‘Prezado Senhor,’. O certo não será ‘Prezado Senhor:’?” (M. C., Recife/PE)

Há três possibilidades de uso do vocativo em ofícios e cartas comerciais no aspecto da pontuação:

Prezado Senhor, [com vírgula]

Prezado Senhor: [com dois-pontos]

Prezado Senhor [sem nada: versão moderna, mais limpa e econômica].

Naturalmente, em correspondência de cunho particular, dita a regra quem escreve. Aí se usa a pontuação (ou não) a gosto – é possível até continuar a escrever na mesma linha depois do nome seguido de vírgula ou dois-pontos.

postado por gvlima@terra.com.br

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