Raul Soares – Navio Prisão

HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS
O navio-prisão (1)

Uma das páginas negras da história santista

O nome Raul Soares não causa boas recordações entre os santistas, especialmente os que ainda recordam os episódios relativos ao regime militar instaurado no país em 1964. As histórias passadas a bordo do navio batizado com esse nome já se transformaram em pelo menos dois livros editados na Baixada Santista. Entre outras matérias na imprensa, destaca-se esta, publicada na edição número 2 do jornal Preto no Branco, da Cooperativa dos Jornalistas de Santos Ltda. (Jornacoop), em setembro de 1979:

“Arrancamos das entranhas do navio maldito as histórias proibidas dos sombrios cárceres, dos calabouços de tortura de presos políticos em 64”
Reprodução da capa desse mensário publicado em setembro de 1979 Nau insensataTexto de Carlos Mauri Alexandrino
Fotos do navio cedidas pelo Museu Naval de São Vicente Os velhos ferros rangiam com as oscilações noturnas das marés, estalavam com os leves balanços que o banco de areia onde fora encalhado o navio ainda permitia. Som monótono  quebrado pelas tosses doentias dos que já escarravam sangue, que tossiam para fora os pulmões corroídos pela umidade e pelo frio. Era o único ruído que se permitia atravessar as portas trancadas e vencer os sombrios corredores. Já o fedor de mijo e de merda não esperava ordem para invadir tudo, fazendo arder o ar nas narinas e gargantas.

Os que mesmo sem cobertas conseguiam dormir sobre imundos colchões úmidos, vencidos pelo cansaço, eram despertados muitas vezes pelo exército de pulgas, baratas e percevejos que insistiam em entrar nos narizes, bocas e orelhas adormecidas. Na maioria das celas, entretanto, enfrentar o colchão era menos desconfortável que ficar em pé, com água gelada pelo tornozelo.

De repente, uma patrulha abria a porta e lançava para dentro a luz de uma lanterna elétrica, sempre secundada pelos canos ameaçadores das metralhadoras portáteis. Os homens da Polícia Marítima entravam levantando os prisioneiros e revistando tudo, como se fosse possível esconder alguma coisa. Os escritos eram apreendidos para ser anexados aos processos ou então para abertura de novos inquéritos: uma poesia podia significar mais algumas semanas no imundo navio-prisão.

Às seis horas soava a sirena, a ordem para que todos se levantassem. Em pouco tempo era servido o café e um pedaço de pão. Eram colocados fora das celas que eram abertas o tempo suficiente para que o preso apanhasse a caneca, sob a mira das metralhadoras, para que não conversasse ou lançasse qualquer olhar sobre o vizinho de infortúnio. Às onze horas, era servido o almoço, no convés, para onde os presos eram encaminhados em fila indiana, sob mira das armas também.

A comida era uma pasta intragável de arroz e feijão-preto estragados.

Cada um pegava sua bandeja que era enchida com uma pasta de arroz e feijão-preto, na maioria das vezes, azeda e malcheirosa, que provocava diarréias incontroláveis e dores de estômago. Não havia talheres para todos e por isso eram obrigados a comer com as mãos.

Alguns se recusavam a esse tratamento, exigindo o tratamento digno de um preso político: esses simplesmente não comiam mais, contentando-se com a banana ou a laranja servida como sobremesa. O jantar era uma sopa intragável feita com os restos do almoço, servida lá pelas 16,30 horas.

As saídas das celas eram limitadas a uma ida diária ao banheiro e aos chamados arejamentos que não eram diários e, preferencialmente, nos dias chuvosos e frios, quando os presos eram colocados no convés para caminhar ou fazer exercícios forçados incompatíveis com suas condições físicas. Muitos presos, em cinqüenta dias de prisão, não chegaram a sair para arejamento dez vezes, meia hora em cada uma. Nada de conversa: era proibido.

Não havia médico a bordo – a não ser alguns encarcerados que
não podiam atender ninguém – e os poucos medicamentos foram distribuídos por um enfermeiro da Marinha que insistia em ser chamado de doutor e que reagia com violência se as crises eram noturnas, despertando-o do sono. O que mais fazia esse “doutor” era dizer que não entendia daquela determinada doença e, quando estava de bom humor, deixava algumas aspirinas aos sofredores.

O navio, na época em que foi usado como prisão militar
Foto publicada com a matéria O Raul Soares já era um velho de 64 anos ao chegar a Santos, em 24 de abril de 1964, para começar a receber os presos políticos seis dias depois. Havia sido um vigoroso transatlântico alemão antes de ser adquirido pelo Lloyd Brasileiro, em 1925. Serviu de prisão da rebelião comunista em 1935 e na revolta dos sargentos em Brasília. Sua última missão foi ainda de encarcerar brasileiros, fundeado em Santos. Os episódios que virão a seguir mostram, por si, o que foi o negro período: El Moroco – Os calabouços do navio eram três, batizados, ironicamente, com nomes de inferninhos famosos da época. El Moroco era um salão totalmente metálico, ao lado da caldeira, sem nenhuma ventilação, onde a temperatura passava dos 50 graus, sem nenhuma iluminação. Ainda assim era o melhor. O Night and Day era uma pequena sala onde o preso ficava com água gelada pelo joelho. O Casablanca era onde eram despejadas as fezes dos presos. Eram usados para quebrar a resistência – ou o que tachavam de impertinência – dos presos políticos. A maioria passou por essas salas. Foi onde Manoel de Almeida, ex-líder operário, contraiu a doença que o matou dois meses atrás. Waldemar Guerra, o que mais resistiu, ficou 16 dias num deles, sem comer.

Os calabouços eram os cubículos onde se jogavam as fezes dos presos políticos.

Libertados-presos – O Juiz da 2ª Vara Criminal de Santos, Antônio Ferreira Granda, concedeu habeas-corpus para 16 presos que deixaram o navio por volta das 21 horas de um determinado dia. Foram colocados na sala do então capitão dos Portos, Júlio de Sá Bierrenbach, de quem ouviram a pergunta se alguém tinha queixas contra o tratamento recebido.

Não houve nenhuma resposta, pois a vontade de ir para casa era muito grande. O capitão chamou a imprensa, mandou que os fotografassem e saíssem. Em seguida tornou para os presos: “Quero comunicar que vocês estão soltos e que agora, que estão em liberdade, estou dando nova voz de prisão, pois se saíram do processo da Aeronáutica, ainda não enfrentaram o da Marinha. Estou abrindo novo inquérito”. E deu ordem para que os soldados os conduzissem de volta ao navio. Muitos choraram de tristeza e ódio.

O pequeno japonês era fechado na geladeira todas as sextas-feiras.

Operação resfriamento – Os presos do Exército, sob ordens do tenente-coronel Sebastião Alvim, eram submetidos a longos períodos de permanência dentro de uma geladeira. O nipônico Tomochi Sumida, absolutamente enfraquecido pelos maus tratos, era internado na geladeira todas as sextas-feiras: de duas em duas horas soldados armados de metralhadoras abriam a porta para que entrasse ar e voltavam a fechá-la.

Grupo de prisioneiros no Raul Soares
Foto publicada com a matéria
Sem banheiro – A conversa entre os prisioneiros era proibida e nas poucas vezes em que foi possível a montagem de um sistema qualquer de comunicação, sua descoberta foi punida com a proibição dos arejamentos e das idas ao imundo banheiro coletivo, sendo obrigados os presos a fazer suas necessidades no chão da própria cela.

Jornalistas sabujos – Certa vez foram levados a bordo dois jornalistas de Santos, com a missão de descreverem em A Gazeta as “ótimas condições carcerárias”. Ambos procuraram elogiar os militares durante a visita e no jornal do dia seguinte estava anotada a única queixa: faltavam facas para cortar os bifes. Ambos ainda estão na ativa.

Propostas – O capitão Francisco Renato de Melo, da Aeronáutica, prendia sargentos e posteriormente fazia propostas desonestas às suas esposas. Assim aconteceu com o sargento Nilton Alencar, o suboficial Aving e muitos outros militares presos.

A embarcação “maldita”
Foto publicada com a matéria
Roubar bananas – Os descuidados caiçaras que passavam com suas canoas perto do navio eram presos e submetidos a interrogatórios que nunca provaram coisa alguma contra ninguém. Enquanto eram interrogados, suas cargas, geralmente bananas ou peixes, eram subtraídas pelos soldados.

Baratas, pulgas e percevejos infestavam as celas imundas e úmidas.

Desconfiança total – Quando a Marinha descobriu que os policiais marítimos haviam dado algumas facilidades aos prisioneiros por dinheiro e que haviam feito algumas fotos a bordo, os fuzileiros navais foram proibidos de conversar com os membros da outra força. Foram armadas metralhadoras potentes em pontos estratégicos: a Polícia Marítima vigiava os presos e a Marinha vigiava a Marítima.

Se vinha ordem de soltura, os presos eram indiciados em novos inquéritos.

Sem Lei – Os habeas corpus jamais foram respeitados e mesmo as ordens de soltura não eram atendidas. Todos os militares comentavam abertamente – e especialmente o tenente da Polícia Marítima, Ariovaldo Pereira dos Santos, o mais violento dos carcereiros -, que qualquer ordem de soltura seria contornada com a abertura de novo inquérito. Assim ocorreu com grande número de presos, entre eles Sérgio Martins, Argeu Anacleto da Silva, José Ribeiro, Neves Guerra, Nelson Frutuoso Amado.

Capa do livro de Nelson Gatto
Foto publicada com a matéria O jornalista foi calado“O depoimento que ora torno público, escrito em papel de embrulho num cárcere imundo de um dos sombrios navios-prisão em que brasileiros foram trancados, tratados como criminosos, é a explicação que dou aos meus amigos. Sem qualquer pretensão literária, é apenas um documento a retratar o Brasil numa época desgraçada.” Assim começa o livro Navio Presídio que poucos leram, ao contrário do que seu autor, o jornalista Nélson Gatto, pretendia. Escrito em 65, foi apreendido pelo Dops (N.E.: Delegacia de Ordem Política e Social) sem chegar às livrarias. A Justiça Civil mandou devolver o livro que, em seguida, foi apreendido pela Aeronáutica. No Superior Tribunal Militar, mais uma vez – e desta por 10 a 0 – veio ordem para que fosse liberado, pois o relator, general Mourão Filho, nada viu de pernicioso em seu texto. Mas o então coronel da Aeronáutica, Francisco Renato de Melo, não obedeceu à ordem: invadiu a gráfica, apreendeu toda a edição e lançou-a ao mar. Somente um exemplar escapou.

Depois o coronel justificaria ao autor: “Os juízes têm canetas, nós temos metralhadoras”. Gatto, que havia passado 43 dias no navio-presídio, voltou a ser preso em 67, para responder sobre o livro, conforme prometera o então capitão dos portos, Júlio de Sá Bierrembach. Em 1968, novamente preso:

– Era véspera de 1º de maio – conta o jornalista – e corriam boatos de que haveria manifestações. Então fui encarcerado pelo II Exército. Durante o discurso, o governador Abreu Sodré foi apedrejado em praça pública e o Serviço Secreto da Aeronáutica me identificou como o líder do apedrejamento, o que A Gazeta noticiou em manchete. E eu na cadeia o tempo todo. Foi uma desmoralização geral.

– Em 1970 fui acusado de ter articulado, ou participado, ou sei lá o que imaginaram, no seqüestro do cônsul japonês. Aí fui para a Operação Bandeirantes, na rua Tutóia (N.E.:Oban, órgão da repressão nessa rua da capital paulista), onde passei onze dias. O que aconteceu ali faz o episódio do Raul Soares parecer um passeio. Numa ocasião me deixaram horas na beira da represa Billings, totalmente nu e com uma pedra amarrada no pescoço. Depois me levaram para um matagal e mandaram que eu corresse. Fiquei parado como uma estátua apesar dos tiros que dispararam próximos a meu corpo, e isso, sem dúvida, me salvou a vida.

– Queriam que eu confessasse que estava envolvido no seqïestro, o que era um absurdo total. Me colocaram dois dias numa pequena cela, totalmente escura, com um rato enorme e faminto. Se eu me sentava, o rato atacava e mordia. E
naquela escuridão eu não conseguia matá-lo. Fiquei o tempo todo em pé, procurando chutá-lo. Além disso, tomei choques e fui espancado. Vi numa cela coletiva um grã-fino de São Paulo, Paulo Henrique Sawaia, tentar achacar o Tomas Farcas, dono da Fotótica, que também estava preso. Ele disse a Farcas que tudo se resolveria se desse dinheiro para a repressão política. Ele recusou e, nos dias seguintes, prenderam-lhe um filho e a filha.

– Fiquei 343 dias preso como suspeito e quando seqüestraram o cônsul suíço no Rio, fui incluído na lista. Enviaram-me para o Rio, mas me recusei a deixar o país. Aí, tentaram me usar para fazer propaganda e fizeram com que gravasse um depoimento para a televisão, de 40 minutos, nos quais não fiz um elogio sequer à revolução. O depoimento acabou saindo todo cortado, reduzido a oito minutos, porcamente montado. Queriam que eu condenasse o seqüestro e afirmasse que estava sendo bem tratado. O que falei foram das torturas, o que não servia a seus propósitos.

– Foi tudo coisa de um promotor da Justiça Militar, Durval Aírton de Moura Araújo, que queria me pegar de qualquer maneira. Era tão desequilibrado que atualmente é procurador, de modo que não participe de mais nada. Ele chegou a me acusar de distribuir armas a manifestantes em Santo André, no dia da morte do Assis Chateaubriand (N.E.: fundador do grupo jornalístico Diários Associados). Acontece que durante a manifestação eu estava ao lado do
delegado Alcides Cingilo, do Dops. Assim mesmo, a denúncia daquele desequilibrado foi publicada em página inteira do Estadão.

Nelson Gatto era jornalista dos Diários Associados e, antes da revolução, foi transformado em chefe do Departamento de Repressão ao Contrabando em S.P., posição a que foi chamado pelo II Exército, pela experiência demonstrada nas grandes reportagens que fez denunciando gangs contrabandistas, “os bandidos de casaca”, como costuma dizer. Quando foi dado o golpe militar, conseguiu fugir disfarçado de padre, e se entregou posteriormente. Como jornalista, foi correspondente de guerra durante a invasão de Goa, na guerra do Congo, e na luta de libertação da Argélia, sobre os quais também escreveu livros. Hoje, anistiado, pretende voltar ao jornalismo, do qual foi afastado por ordem militar. O repórter escreverá novamente.

HISTÓRIAS
E LENDAS DE SANTOS

O navio-prisão
(2)


Uma
das páginas negras da história santista

Além
das histórias contadas por Marcelo Gatto, outro livro santista enfoca

os acontecimentos do Raul Soares: escrito pela jornalista e professora
Lídia Maria de Melo, conta a história de um dos presos políticos
nesse navio: Iradil Santos Mello, seu pai. O jornal A Tribuna divulgou
assim o lançamento do livro Raul Soares – Um navio tatuado em
nós
, em matéria publicada no dia 19 de novembro de 1995:

MEMÓRIA
‘Raul Soares,
Um Navio Tatuado em Nós’

Fernanda
Piconez e Trigueiros

Da reportagem

Por
ironia, era um 1º de abril do ano de 1964. Os sindicatos foram invadidos
por policiais das Forças Armadas, e como o operário Iradil
Santos Mello havia passado a noite no Sindicato dos Operários Portuários
e não chegara em casa pela manhã, sua esposa, Mercedes Gomes
de Sá, foi procurá-lo. As filhas, Laura, de oito anos, e
Lídia, de seis, não haviam ido à escola – que funcionava
no sindicato – porque as aulas estavam suspensas.

Na volta, a
mãe diz às filhas que o pai estava preso, e aí começa
um drama vivido por muitas famílias em Santos e no País.
A obrigação de estar calado, de denunciar amigos, de incriminar
inocentes, de se afastar dos entes queridos, de fugir, de se esconder,
de jogar tudo para o alto. Era o período da ditadura instituído
pelo golpe militar, que deixou marcas profundas em muita gente.

Os sindicalistas,
incluindo Iradil, foram presos no Palácio da Polícia, em
Santos, de onde muito marginal foi tirado para ceder suas celas a eles,
a jornalistas e a estudantes. Sindicatos sob intervenção,
seus integrantes eram chamados para interrogatórios absurdos e as
ameaças de serem mandados para o Raul Soares, um ex-navio
de passageiros que estava ancorado próximo à Ilha Barnabé
e serviria de presídio político, foram cumpridas.

Iradil ficou
um mês e meio internado no Raul Soares. A imagem do navio
e todas as conseqüências da prisão vivida por ele ficaram
na cabeça de suas filhas ainda pequenas. Anos depois, uma delas,
Lídia Maria de Melo, resolveu contar esta história. Corajosa,
ela teve que passar por cima de barreiras emocionais e conter as lágrimas
que insistiam em rolar.

O resultado
poderá ser conferido na noite de autógrafos de Raul Soares,
Um Navio Tatuado em Nós
, que acontecerá na quarta-feira,
às 20h30, no Consistório do Campus Santa Cecília,
na Rua Osvaldo Cruz, 279.

O livro, um
relato emocionado da história de sua família e do País,
terá tiragem de dois mil exemplares, que serão distribuídos
no Brasil e em Portugal. Enfim, vai-se saber mais um pouco deste período
que nunca deveria ter existido, mas que jamais deve ser ignorado.

O navio,
na época em que foi usado como prisão militar

Foto publicada
com a matéria
Idéia
vem desde a infância
Impossível
não ficar eternamente marcada depois de tantos acontecimentos. Impossível
também não ter a vida totalmente alterada depois de tudo.
E assim, Lídia, que sempre gostou de literatura, começou
a escrever. Perigosamente, porque na época imperava a ditadura,
e a mãe, prevendo os perigos, insistia para que a filha tivesse
muito, mas muito cuidado.
Isso foi em
1975, quando Lídia tinha 18 anos e fez a primeira tentativa de escrever
sobre o assunto. O que saiu foi um conto no qual uma menina de seis anos
observava o relacionamento de seus pais a partir de problemas políticos.
Depois de pronta, ela mostrou sua obra a uma pessoa neutra, que
não conhecia a história. O veredito? “O conto é irreal,
porque é impossível que uma criança desta idade tenha
esta compreensão da vida e possa ter estas impressões”.

Só que
não havia inverdade nenhuma. Quando tudo começou a acontecer
Lídia tinha apenas seis anos, e aquelas eram realmente suas impressões.
Mas, como os pais já estavam separados e algum tempo havia se passado,
ela achou melhor enterrar a idéia. “Desse assunto não era
tocado. Sempre falávamos sobre política mas não queria
reabrir feridas”.

Mas em 1985,
quando terminava o curso de Jornalismo – já era formada em Letras
-, chegava a hora de elaborar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)
e Lídia pensava em fazer uma análise do livro Sangue de
Coca-Cola
, de Roberto Drummond, uma ficção baseada na
ditadura mas que utiliza personagens reais.

Esta idéia
surgiu porque em sua prateleira havia muitos livros sobre repressão,
a chamada literatura de resistência, que era escrita por jornalistas
e grandes nomes como Fernando Gabeira, Frei Betto, Fernando Pacheco Jordão,
Roberto Drummond, entre outros. Os assuntos eram os que atingiam muita
gente: anistia, abertura política, torturas, desalento, tristeza…

Em uma conversa
com o orientador do trabalho, o jornalista Eron Brum, ele sugeriu que Lídia
fizesse uma entrevista com seu pai e contasse a história. Pronto,
era o que faltava para que viessem à tona aquele velho desejo, visto
também como uma obrigação, e os bloqueios emocionais.
“Eu sempre me emocionava muito quando falava disso, mas achava também
que tinha uma coisa importante para contar”.

Diante do xeque-mate,
ela teve que conversar com o pai e qual não foi sua surpresa quando
ele aceitou na hora o desafio de tocar nas feridas e falar sobre o que
passou e sentiu com suas prisões e com a experiência do Raul
Soares. “Aí eu concluí que os bloqueios eram meus e que não
dava mais para adiar”.

Gravador em
punho, foram dois domingos inteiros, que resultaram em cinco fitas de pura
história. Além disso, Lídia garimpou material em livros
e jornais. Um mês e meio depois, o trabalho estava pronto. Apresentado
em novembro de 1985, o TCC recebeu nota máxima da banca examinadora,
formada pelos jornalistas Eron Brum, Lane Valiengo e José Reis Filho.
Mas a publicação ainda iria esperar dez anos.

“Eu nunca procurei
editora. O trabalho foi para a gaveta. Depois de um tempo, para complementar,
fiz uma pesquisa de fotos e documentos, tem muitos editais que foram publicados
na época”.

Há três
anos veio a proposta da Universidade Santa Cecília dos Bandeirantes
– Campus Santa Cecília (Uniceb) para uma co-edição
com a Editora Pioneira, de São Paulo. “Eu comecei a dar aulas na
universidade e a diretora-superintendente do campus, Sílvia Ângela
Teixeira Penteado, fez o convite”. Pronto, o grito há tanto tempo
entalado na garganta seria finalmente ouvido por muita gente. A missão
estava cumprida.

Sindicalista
Iradil Santos Mello

Foto de Luigi
Bongiovanni, publicada com a matéria

Iradil, o sofrimento
por ser sindicalista

O
único crime cometido por Iradil Santos Mello foi ser conscientizado,
politicado e sindicalista em uma época em que, segundo padrões
estabelecidos por eles, isso era proibido. Este sergipano que gostava
de violão, cavaquinho e às vezes dava uma de repentista não
poderia imaginar que lutar por seus direitos e por um País melhor
poderia lhe sair muito caro.

Trabalhador
da Companhia Docas de Santos, era atuante nas assembléias do Sindicato
dos Operários Portuários e achava que, se participasse da
diretoria, poderia fazer mais pela categoria. Mas o que recebeu foi uma
centena de interrogatórios, tratamento como se fosse marginal, hostilidade
e, finalmente, duas prisões, uma no Palácio da Polícia
e a outra no navio Raul Soares.

Diretores de
seu sindicato foram presos por 200 policiais armados e Iradil era um deles.
Depois de ter seus direitos aviltados, foi anistiado em 1979 mas nem de
longe teve seus problemas resolvidos. Mesmo com direito a voltar ao trabalho,
a Cia. Docas não quis aceitá-lo, e ele foi aposentado compulsoriamente.

Indignado,
entrou na Justiça para reivindicar a volta ao emprego e ganhou a
causa. De volta, e por cima, ficou nas Docas até 1991, quando, para
evitar a demissão de cinco mil funcionários, a empresa elaborou
a demissão incentivada. Para garantir o emprego de amigos, já
que era aposentado, Iradil se afastou e, atualmente, reside em Guarujá.

A autora,
Lídia Maria de Melo

Foto de Irandy
Ribas, publicada com a matéria

Lídia,
jornalista e professora

E
depois de tudo pronto, como é que a Lídia se sente? “Eu tinha
necessidade, como filha, jornalista, cidadã santista e brasileira,
de relatar esses fatos, porque muita gente viveu isso em Santos e foi um
problema para diversas famílias. Até hoje ninguém
escreveu, ou porque não venceu os bloqueios emocionais ou porque
não tinha preparo. Como tive condições, embora tenha
sido um parto difícil, me vi na obrigação de escrever,
principalmente porque a nova geração desconhece tudo o que
ocorreu. A missão está cumprida”.

Agora, ela
espera que a obra seja bem utilizada pelos estudantes, pelos professores
de História – “que têm a responsabilidade de formar” -, por
jornalistas e por todas as pessoas que tenham interesse em saber mais sobre
a história de sua Cidade e seu País. “Mas não espero
que elas tenham sentimento de revolta ou vingança, e sim, de resgatar
e reavivar nossa memória, para evitar que coisas assim voltem a
acontecer”.

O que a escritora
quer é que seu filho se espalhe e a história seja
difundida. “Agora, ele não é mais meu”. Citando o escritor
argentino Ernesto Sábato, Lídia afirma que “não há
ditaduras más e outras benéficas. Todas elas são igualmente
abomináveis”.

E os planos?
Nesta linha ela não tem intenção de escrever mais
nada. Já cumpriu sua missão. Mas tem engatilhado, além
de um romance (ficção), material para formar um livro de
poesia. Também faz parte dos planos escrever um livro na área
de saúde, mas mostrando o lado do paciente.

Quem é

– Lídia Maria de Melo é santista e nasceu em 28 de setembro
de 1957. Licenciada em Letras pela Faculdade Don Domênico, de Guarujá,
pela turma de 1978, é também bacharel em Comunicação
Social, pela Universidade Católica de Santos (turma de 1985). Ela
começou a exercer o jornalismo em janeiro de 1986, no jornal Cidade
de Santos
. Desde 1988 trabalha em A Tribuna, onde exerce o cargo
de subeditora da Editoria Local. Também colabora com reportagens
para a revista Nova Escola, do Grupo Abril.

De 1976 a 1994
atuou no magistério como professora efetiva concursada do Estado
de São Paulo, ministrando aulas de Português e Literatura
Brasileira. Inconformada por natureza, pediu exoneração do
cargo por estar decepcionada com a política educacional da rede
pública. Hoje, leciona Português no curso de Jornalismo da
Uniceb, mas já foi professora da Universidade Católica de
Santos, dando aulas de Redação Jornalística na Faculdade
de Comunicação Social.

Lídia,
que também faz composições musicais, já publicou
poemas em antologias editadas pela Shogun Arte Editora. É detentora
de prêmios literários, como o Ruy Ribeiro Couto, da Academia
Santista Juvenil de Letras, onde já ocupou a cadeira Luso Ventura.

Raul Soares,
Um Navio Tatuado em Nós
é seu primeiro livro solo,
que já teve trechos publicados em A Tribuna, na editoria
de Porto & Mar. Aliás, foi desta publicação
que Lídia extraiu o título da obra, que inicialmente estava
batizada de Para Não Ser Pego de Surpresa. Por esta matéria,
ela recebeu uma homenagem da Câmara Municipal de Santos.

Capa
do livro de Lídia Maria de Melo

Reprodução
publicada com a matéria
Obra se divide
em duas partes
A
escritora dividiu o livro em duas partes. A primeira vai de 1963 a 1985,
e a segunda é o que foi extraído das entrevistas com seu
pai. O começo, que é a história contada sob o ponto
de vista de Lídia, é narrado em primeira pessoa, e ela mostra
como era a vida da família antes do terror instituído pelo
golpe militar.
O pai tinha
uma vida muito ativa, sendo candidato a vereador em Guarujá e um
dos integrantes de uma das chapas que disputava a diretoria do Sindicato
dos Operários dos Serviços Portuários de Santos, Guarujá,
São Vicente e Cubatão.

Na época,
Laura, a irmã mais velha, tinha sete anos; Lídia, seis, e
a mãe, Mercedes Gomes de Sá, estava grávida de Lúcia.
A infância também é muito lembrada, com a entrada para
a escola e, em seguida, o golpe militar e a quebra do clima de tranqüilidade.
A partir daí, o livro mostra as prisões do pai, as impressões
de Lídia à visita ao Raul Soares, as dificuldades
do pai para arranjar emprego, os processos, a postura da família
e todos os problemas sofridos.

“Na escola,
o dia 31 de março era comemorado como uma data importante, mas para
nós era diferente. Tínhamos uma visão muito diferente
daquilo”. Mas Lídia não se limita à vida familiar.
Ela insere informações políticas e sociais da Cidade
e do País, como os festivais de 1967, as mudanças na legislação,
os Atos Institucionais, o movimento estudantil, as torturas, entre outros.

Entrevistas
– A segunda parte foi escrita baseada na entrevista com o pai e traça
a história a partir do que ele contou. Daí surgem dados sobre
sua entrada no sindicalismo, movimentos importantes dos trabalhadores em
Santos e em outras cidades, os bastidores da prisão no Raul Soares,
o que os presos faziam para passar o tempo, ocioso e repleto de medos e
sobressaltos. Inclusive, as músicas que eles compunham ironizando
a própria situação:

Somos presos
do Raul Soares

detidos para
investigação

e acusados
de subversão,

mas o negócio
não é esse não.

Nos sindicatos
há intervenção,

nossos direitos
rolaram no chão.

Temos Muniz,
Cabeças e Cipriano

mancomunados
com o capitão.

Mas nós
aqui


aprendemos essa lição

não
cola não

não
cola não.

Esse negócio
de artigo

é papelão,
é papelão
do capitão.

Agora só
nos resta esperar

que esta comédia
venha se acabar.

Lídia
também cita o caso do jornalista falecido Nélson Gatto, que
chegou a escrever um livro sobre o navio, que foi
destruído e nunca mais reeditado. Dá ainda detalhes dos processos
sofridos pelo pai e da anistia, que nasceu em 1979.

Tudo isso é
entremeado de muita poesia (escrita pela própria Lídia),
letras de músicas, frases, fotos tiradas do álbum de família
e documentos. A apresentação é de Eron Brum, para
quem “Lídia revela o pai como um ser comum envolvido numa luta trágica:
o sindicalista que ousa enfrentar as garras da ditadura. E ela o faz com
poesia, para o desespero daqueles que estiveram do outro lado da história.
Rara alquimia que faz ver o trágico com os olhos da ternura”.

Do reencontro
com o pai e da descoberta de muitas coisas nasceu este poema, intitulado
O Sentimento, que Lídia dedicou a ele e à liberdade:

Hoje tenho
motivos

para um sorriso
vingado

Te encontrei
sobrevivo, resgatado,

Ainda percebo
vestígios

dos dribles
dos últimos anos.

Mas tua cara
anda boa

solicitando
um brinde.

Como não
bebo

ergo a mão
em sinal de
prazer.

De total excitação.
De sangue
sobrecarregado

de adrenalina…
Ergo a mão
e arrisco
uma gargalhada.

Sabia que
um dia

ainda riríamos
de muitos deles.

Sabia!
Até
parece piada.

Te arrebentaram…
Te matar não
conseguiram.

SERVIÇO
– Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós tem 122 páginas
e capa criada pela Letra Nova Publicidade. A revisão e atualização
ficaram a cargo de Lídia Maria de Melo. Fotos de Luigi Bongiovanni
e Irandy Ribas.

HISTÓRIAS
E LENDAS DE SANTOS

O navio-prisão
(3)


Uma
das páginas negras da história santista

Texto da jornalista Lídia Maria de Melo, publicado no jornal santista A Tribuna em 2 de novembro de 2003:


Thomas
Maack que acabou se exilando nos Estados Unidos

Foto: reprodução/1965
– publicada com a matéria
MEMÓRIA

Thomas Maack,
médico e preso do Raul Soares

De Nova
Iorque, após 39 anos, pesquisador relata fatos vividos no navio-presídio

Lídia
Maria de Melo

Editora
Local

Santos,
1964. Com revólver em punho, um oficial da Marinha pára diante
da cela. Há uma emergência noturna no navio Raul Soares.
Um prisioneiro acaba de cortar os pulsos, para tentar se matar. O jovem
médico de cabelo vermelho e nome alemão é levado para
prestar os primeiros-socorros.

Depois de constatar
que o corte é superficial, faz a sutura e aconselha a remoção
do ferido para a Santa Casa. A partir daquela noite, quando os presos adoeciam,
eram tratados por ele, Thomas Maack, um prisioneiro também.

Nos relatos
que depois surgiram sobre a embarcação que serviu de presídio
político no porto, de abril a outubro daquele ano, o médico
era sempre mencionado. Ninguém, porém, sabia precisar o seu
paradeiro. Assim, ele se tornou apenas um nome, uma lembrança para
alguns poucos.

Hoje, faz exatamente
39 anos que o Raul Soares foi rebocado das cercanias da Ilha Barnabé
para virar sucata no Rio de Janeiro.

No próximo
mês, completará a mesma quantidade de tempo que Thomas Maack
deixou o Brasil, aos 29 anos, com a mulher, a professora Isa Tavares Maack,
e a filha Marisa, de 18 meses. Se ficasse, voltaria a ser preso pelos militares
que comandavam o País desde 31 de março daquele mesmo ano
de 1964.

Por coincidência
(que não sera a única em sua vida), foi com idade idêntica
que seu pai, Hans Maack, saiu de Insterburg, na Alemanha, com destino ao
Brasil, no início de 1936, para proteger a família do nazismo.
A mãe, Kate Maack, era de origem judia e Thomas tinha poucos meses
de nascido.

Em agosto último,
consigo localizar Thomas Maack nos Estados Unidos. Depois de tomar conhecimento
de que meu pai, Iradil Santos Mello, também esteve no navio-presídio,
aceita de pronto conceder entrevista, com exclusividade. Numa longa conversa,
por e-mail, durante mais de dois meses, ele conta os motivos de
sua prisão, sobre o período de isolamento no Raul Soares,
a fuga do Brasil e as dificuldades de adaptação em um país
para onde a vida o levou.

“Algumas lembranças
são duras, mas, em geral, lembrar é quase uma catarse para
mim”, sintetiza o médico, que se tornou pesquisador de renome internacional
e professor titular de Fisiologia da Weill Cornell Medical College (Escola
Médica da Universidade de Cornell), da cidade de Nova Iorque.

Exílio
– Quando decidiu ir embora, em dezembro de 1964, após ser libertado,
achou que logo voltaria. O regime militar, no entanto, durou 25 anos e
ele foi expulso do País por decreto do Governo, perdendo o direito
de se naturalizar brasileiro.

Após
a assinatura da Lei da Anistia, em 1979, retornou. Mas a família,
já acrescida de mais uma filha, Márcia, não se adaptou.
“Essa é uma história importante de exílio”, analisa.
“Não se fica fora do País por 15 anos, para depois voltar
como se nada tivesse acontecido”. O regresso para os Estados Unidos foi
inevitável. Em 1982, Thomas Maack naturalizou-se norte-americano.

Mesmo vivendo
em Nova Iorque há quase quatro décadas, o cientista de 68
anos, completados em 17 de julho, ainda torce para o Corinthians e tem
o coração fincado em São Paulo: “Continuo a me considerar
um paulistano típico”. Esse sentimento se explica, a seu ver, porque
foi na capital paulista que ele passou a infância, a juventude e
o início da fase adulta.

Ao Brasil,
costuma vir para compromissos profissionais e, ocasionalmente, em férias.
À Baixada Santista, nunca mais voltou. Mas daqui ele guarda recordações
melhores do que as dos meses em que esteve preso no navio e na cadeia do
Palácio da Polícia, na Rua São Francisco, no Centro.

“Conheço
Santos e a Baixada desde criança, quando eu ia passar as férias
com meus pais. Lembro da Praia do Gonzaga, em Santos; de Itanhaém,
onde eu ia namorar a Isa; de Bertioga, onde passamos a lua-de-mel e choveu
o tempo todo, e de Guarujá. Nunca associei minha prisão,
no Raul Soares e na cadeia, com Santos”.

Prisão
ocorreu na Faculdade de Medicina da USP

Thomas Maack
foi preso na manhã de 8 de junho de 1964, uma segunda-feira, por
agentes do Departamento da Ordem Pública e Social (Dops) e militares
à paisana.

Estava em seu
laboratório, na Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo (FMUSP), onde se formara em 1961 e depois se tornara auxiliar de
ensino no Departamento de Fisiologia.

Era acusado
de subversão e de planejar a implantação do regime
comunista no País, por ter participado dos movimentos estudantil
e trotskista. “Os militares sabiam que eu tinha um conhecimento grande
das atividades, inclusive de nomes de militantes”. Ele ressalta, porém,
que já havia rompido com o trotskismo quando foi preso. Mesmo assim,
a seu ver, essa ex-militância foi o motivo principal de sua prolongada
prisão.

Também
pesou o fato de ter se oposto ao golpe militar dentro da FMUSP, já
como professor. Acabou delatado por outros docentes e funcionários
da faculdade.

Na tarde do
mesmo dia 8, seu apartamento foi invadido. Levaram livros e papéis,
desatarraxaram lâmpadas, esvaziaram gavetas e armários. Buscavam
provas para as acusações que lhe imputavam. “Como fui absolvido
pela Justiça Militar nos dois processos em que figurava, essas acusações
deviam ser patentemente falsas”.

Algumas eram
mesmo grotescas. “Disseram que encontraram uma bala de arma do Exército
no nosso apartamento. Nunca peguei uma arma ou bala de espécie alguma
em minha mão. Disseram que tinham uma fotografia minha, vestido
de sargento no Nordeste, fomentando a revolução comunista.
Nunca tinha ido ao Nordeste brasileiro”.

Da USP, foi
levado para a sede do Dops. E, após algumas horas, para o Quartel
do Exército de Quitaúna, em Osasco, onde ficou por cerca
de três semanas. Era submetido a extensos interrogatórios
comandados pelo tenente-coronel Sebastião Alvim, que mandou invadir
também seu laboratório na FMUSP.

Nessa ação,
os militares pegaram seus livros de protocolo, onde estavam anotadas as
experiências que realizou de 1962 a 1964. “Os livros de protocolo
são o que há de mais precioso para um pesquisador”. Mas eles
achavam que as anotações escondiam códigos secretos
de atos subversivos e nomes de guerra de outros militantes.

O cientista,
que já é avô de Marcelo e Lucas, cita outro exemplo
de avaliação equivocada de seus atos. Em uma das sessões
de interrogatório, o coronel alertou-o sobre o caráter comprometedor
da cesta vermelha em que ele carregava Marisa, ainda bebê, de casa
para a creche do Hospital das Clínicas (HC), que era, e ainda é,
vinculado à FMUSP.

Na visão
do militar, que morreu em janeiro de 1998, e de alguns delatores da FMUSP,
a cor era uma prova irrefutável de sua ideologia comunista. Thomas
Maack rebateu com humor a interpretação. Alegou que seu cabelo
ruivo, quase da tonalidade de um tomate, já seria suficiente para
simbolizar suas idéias. Ainda assim, a cor da cesta figurou em um
de seus processos na Justiça Militar como indicativo de sua culpa.


Os presos
que adoeciam eram atendidos por Thomas Maack

Foto: reprodução
– 16/9/1964 – publicada com a matéria

Quatro meses
de confinamento

No final de
junho de 1964, Thomas Maack foi trazido para Santos e confinado no Raul
Soares
, sem que a família soubesse. Ele estima que no navio,
supervisionado pela Marinha, houvesse cerca de 150 presos políticos.
A maioria era do movimento sindical santista e de outras regiões
do Estado. Havia ainda militares, jornalistas, estudantes e lideranças
de várias áreas.

O cientista
se lembra de poucos nomes. Sabe que muitos adoeciam e deveriam ser acompanhados
por um médico da Marinha, que quase não aparecia. Quando
passou a assistir esses doentes, apontava aos oficiais a necessidade da
transferência para a Santa Casa, se havia gravidade. “Eles sempre
acatavam, porque temiam que houvesse morte entre os prisioneiros e uma
rebelião”.

O estudante
Tomoshi Sumida era um dos que estavam com a saúde fragilizada. “Constantemente,
ele era encarcerado nos chamados quarto quente e quarto frio. Mandei avisá-lo
de que deveria ser visto por um médico, no caso, eu, que daria um
jeito de dizer que sua saúde não suportaria aquele tipo de
exposição. Mas Sumida era corajoso e resolveu mostrar aos
militares que as punições não o iriam quebrar. Não
era a melhor decisão, mas eu respeitava”.

Após
a leitura de meu livro, Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós,
que pediu a um amigo para comprar no Brasil, o pesquisador relata: “A narativa
de seu pai evocou muitas memórias. A descrição sobre
o caso do Zeca da Marinha me fez relembrar com clareza um episódio”.

No final de
uma tarde, um integrante da Polícia Marítima e um oficial
da Marinha levaram à sua cela um prisioneiro com alto grau de agitação
e incoerência mental. O oficial achava que o homem estava fingindo
ser louco. Thomas Maack garante que nada havia de encenação
no comportamento do preso.

“A agitação
era incontrolável e poderia se transformar em violência. Quando
estava tentando dizer isso ao oficial, o prisioneiro tirou a sua aliança
do dedo e a engoliu”.

O oficial e
o policial ficaram impressionados e se retiraram, deixando o prisioneiro
na cela por cerca de duas horas. Ele acredita que esse preso era Zeca da
Marinha. “Ele não falava. Às vezes, andava de um lado para
o outro. Outras, sentava com as mãos na cabeça. Depois, foram
buscá-lo e o liberaram não sei para onde”.

Tratar dos
doentes era a única maneira de Thomas Maack ter contato com outros
presos. Ele ocupava uma cela individual que o mantinha isolado, ao contrário
do que ocorria com a grande maioria que estava alojada em péssimas
condições no porão.

“O meu isolamento
não me permitiu conhecer os trabalhadores da orla marítima,
de saber de suas angústias, de seus castigos, de seus desesperos,
mas também de seu companheirismo”.

Mesmo assim,
conseguiu que a liderança dos sindicalistas desse um jeito para
que um policial transmitisse um recado seu a Isa na Capital. “Aproveitei
que alguns tinham boas relações com policiais marítimos”.

Após
mais de três meses no navio, ele recebeu a primeira visita. Foi a
de sua mãe, que levou Marisa. Isa só obteve autorização
quando faltavam poucas semanas para a desativação do presídio
flutuante. Na primeira vez, ela foi sozinha. Na segunda, estava com a filha.

Em outubro
de 1964, o governador Adhemar de Barros expurgou Thomas Maack da FMUSP.
Depois, a direção da creche do HC expulsou Marisa, já
que o pai não era mais professor da universidade. O castigo ao bebê
foi revogado após protestos e repercussão na imprensa.

Em tempo:
os ex-presos políticos Zeca da Marinha, Tomoshi Sumida e Iradil
Santos Mello já são falecidos.


O cientista
Thomas Maack é professor titular de Fisiologia e Medicina

Foto: Andrew
Suhl/especial para A Tribuna, publicada com a matéria

Exílio
foi a única alternativa para evitar perseguições

O Raul Soares

foi desativado no dia 23 de outubro de 1964. Nessa data, a maioria dos
presos foi libertada e processada, além de ter os direitos políticos
cassados por dez anos. Junto com alguns prisioneiros militares, Thomas
Maack foi transferido para a cadeia do Palácio da Polícia,
de onde só saiu no dia 15 de dezembro por força de um habeas
corpus
concedido pelo Supremo Tribunal Federal.

Três
dias depois, nova prisão preventiva foi decretada. Dessa vez, ninguém
mais conseguiu prendê-lo. Com o auxílio de pessoas que ajudavam
perseguidos políticos, conseguiu um passaporte alemão e foi
até Curitiba com a mulher e a filha.

De lá,
os três viajaram de avião para Assunção, no
Paraguai. A intenção era seguir para o Canadá, mas
não havia vôos diretos. Seria preciso um visto norte-americano.
Permaneceram uma semana na capital paraguaia antes de partir para Nova
Iorque.

Nos Estados
Unidos, ficaram com familiares em Siracusa. Amigos desaconselharam a ida
para o Canadá. Ele, então, falando um inglês que mal
dava para ser entendido, foi conhecer o Departamento de Fisiologia da Faculdade
de Medicina da cidade.

Por outra grande
coincidência, encontrou o renomado fisiologista renal William Kinter,
que havia conhecido durante um congresso na Argentina, em 1959. “Contei
a Kinter minha história e ele imediatamente me ofereceu uma posição
de pós-doutorado em seu laboratório. Assim, uma semana depois,
havia conseguido um emprego. Logo, Isa foi aceita na pós-graduação
de História. Ficar nos Estados Unidos não foi uma decisão
racional. Foi aonde a vida nos levou”.

A prática
médica de Thomas Maack terminou no Raul Soares. Nunca mais
atendeu a pacientes. Não por falta de vontade, mas porque sua carreira
nos Estados Unidos o direcionou exclusivamente à pesquisa e ao ensino
médico.

“A minha contribuição
para o Brasil está na formação dos diversos brasileiros
que foram treinados aqui nos Estadoos Unidos. A maioria desses meus estudantes
brasileiros, hoje, ocupa posições de liderança profissional
no País”.


Reportagem
de A Tribuna de 17 de setembro de 1964 menciona o médico

Imagem publicada
com a matéria

 

Saiba Mais

Thomas Maack
lecionou na Faculdade de Medicina da USP, de 1962 a 1964, e na Universidade
Estadual de Siracusa (NY/EUA) de 1965 a 1969. Nesse mesmo ano, foi contratado
como professor pela Escola Médica da Universidade de Cornell (NY/EUA),
onde mais tarde se tornou titular dos departamentos de Fisiologia e de
Medicina. Também integrou a comissão que implantou o sistema
de reserva de vagas para negros. Membro da Academia Brasileira de Ciências
desde 14 de junho de 2000, dedica seu trabalho à pesquisa e à
formação de médicos.

Nos últimos
20 anos, sua pesquisa vem sendo centrada em estudos pioneiros sobre um
hormônio produzido pelo coração, chamado fator natriurético
atrial, que regula a excreção de sal do organismo e a pressão
arterial. Publicou mais de 100 artigos em revistas científicas,
além de capítulos de livros. Desde 1979, é convidado
para realizar atividades como professor visitante em universidades públicas
brasileiras. Foi consultor da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão ligado
ao Ministério da Educação (MEC), em 1999 e 2001. De
1998 a 2001, participou da reforma curricular em cursos de Medicina, como
o da Universidade Estadual de Campinas.

O navio,
na época em que foi usado como prisão militar

Foto cedida à autora em 1986 pelo proprietário do Museu Naval de São Vicente, Carlos Hablitzel, e incluída no livro Raul Soares, um Navio Tatuado em Nós, publicado em 1995

Memória

O navio Raul
Soares
foi construído em 1900 pela empresa alemã Hamburg-Sud
e batizado de Cap Verde. Tinha capacidade para 587 passageiros.
Pesava 5.909 toneladas. Transportava imigrantes da Europa para a América
do Sul. Em 1919, foi vendido para a Grã-Bretanha. Em 1922, teve
o nome trocado para Madeira. Três anos depois, comprado pelo
Lloyd Brasileiro, passou a ser chamado de Raul Soares, em homenagem
ao político que governou Minas Gerais e dá nome a uma cidade
mineira. Trouxe para Santos muitos migrantes do Norte e Nordeste do País.

Estava inativo
no cais da Ilha de Mocanguê, no Rio de Janeiro, quando foi rebocado
pela embarcação Tridente, da Marinha, até o
Porto de Santos, onde chegou no dia 24 de abril de 1964. Na semana seguinte,
começou a receber prisioneiros políticos, acusados de subversão,
por se oporem ao Governo MIlitar que havia deposto o então presidente
da República, João Goulart, no dia 31 de março. Depois
de desativado como prisão flutuante no dia 23 de outubro, o Raul
Soares
foi levado de volta para o Rio, na manhã do dia 2 de
novembro de 1964. Acabou virando sucata, mas será sempre lembrado
como um símbolo da repressão em Santos.

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